terça-feira, 27 de junho de 2023

O dia em que Ronaldo Fenômeno contratou Nilton César para cantar UMA música na Rússia

Hoje, 27 de junho, o cantor Nilton César completa 84 anos de vida. O músico fez sucesso na década de 1960 com o hit “Professor apaixonado” e no decorrer de sua carreira lançou diversos outros sucessos, como “Férias na Índia” e “A namorada que sonhei”,  que ficou mais conhecida por sua frase inicial: “Receba as flores que lhe dou…”. Mas uma história interessante vem da música “Espere um pouco”.

Em entrevista ao jornalista Danilo Gobatto, na Rádio Bandeirantes, Nilton contou sobre um episódio em que o ex-jogador Ronaldo Fenômeno o convidou para um show de apenas uma música na Rússia. A apresentação aconteceu, teve abertura de Carla Bruni e o brasileiro foi recebido com tapete vermelho. Ele conta que ao terminar recebeu um grande abraço de Ronaldo que “quase o partiu pelo meio”. Confira o relato do cantor na entrevista:

“A história mais interessante que eu tenho na minha vida profissional é essa aí. O Ronaldo Fenômeno queria me contratar para cantar uma música para um biliardário na Rússia. Eu falei ‘não, Ronaldo. Você deve estar fazendo confusão. Eu nunca fiz sucesso na Rússia’. Ele me disse: ‘não, você vai lá para cantar uma música só’.

Eu não entendia, depois pedi para ele me explicar, ele me explicou o porquê que eu iria lá. Ele falou: ‘é que esse russo é casado com uma brasileira há muitos anos e ela é muito sua fã. E de tanto ela ouvir a música, ele se apaixonou pela música. Você vai cantar só uma música’. Eu falei: ‘meu Deus do céu, mas será que eu não posso cantar pelo menos três músicas?’.

Eu falei para colocarmos pelo menos três, ele me deixou colocar três músicas. A hora que eu cantei ‘Espere um pouco’, ele abraçava a mulher dele e foi coisa de lágrimas nos olhos”.

Nilton César continua ativo e ainda se apresentando tanto no Brasil quanto no exterior.

Ópera Cabaré, Casa Barbosa (documentário)

 Em um resgate de uma parte importante da história do samba, o documentário "Ópera Cabaré Casa Barbosa", exibido no In Edit Brasil, revive musicalmente a importância da casa de shows que dá parte do nome do filme: a Ópera Cabaré. Renomados artistas como Adoniran Barbosa, Clementina de Jesus, Zé Keti, entre outros, passaram por lá.

Produzido pela Complô, com direção de Rodrigo Marques e Eduardo Consonni, o documentário segue uma fórmula simples. Foram selecionados seis artistas que costumam se apresentar na Casa Barbosa. Um por um, eles sentam-se, colocam fones de ouvido e ouvem músicas de fitas encontradas contendo apresentações ao vivo que ocorreram na Ópera Cabaré.

Após a audição, o músico comenta o que ouviu, discorrendo sobre detalhes técnicos da música, a influência daquele artista em sua vida e carreira, abrindo espaço para diferentes assuntos. Vicente Barreto, por exemplo, analisa sua antiga apresentação e se depara com seu amadurecimento, enquanto cantores mais jovens mostram como foram influenciados pelos grandes do samba. Além disso, são compartilhadas reflexões sobre as dificuldades da vida de artista e diversos outros temas.

Por fim, depois dos relatos, cada um desses contemporâneos reinterpreta a canção que acabou de ouvir. As seis faixas, inclusive, foram lançadas em um EP que pode ser encontrado na fanpage do filme no Facebook.

O formato do documentário é simples, minimalista e até repetitivo, mas bastante interessante do ponto de vista histórico, reflexivo por meio dos depoimentos e inspirador ao mostrar o sangue novo presente nas reinterpretações.

Tangos e Tragédias para sempre (documentário)

Sem dúvidas um espetáculo único. A conclusão que se tem ao assistir ao documentário “Tangos e Tragédias para sempre” é que a peça, estrelada por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, foi singular, diferente de tudo o que já se viu no teatro. Dirigido por Aloísio Rocha, a produção da BIT Filmes em coprodução com a Videomakers, conta toda a história dessa encenação que ficou mais de 30 anos em cartaz, até a morte de Nicolaiewsky, em 2014.

Hique e Nico interpretam Kraunus Sang e o Maestro Pletskaya, respectivamente. A dupla de músicos, vindos da Sbørnia, fugiu de sua terra natal quando o rock n’ roll chegou ao país. Então, refugiaram-se no Rio Grande do Sul. Com esse enredo, os personagens contavam sua história em um espetáculo que unia atuação, comédia e muito improviso com uma quebra de quarta parede que chegava aos limites, com o show continuando fora do teatro quando a apresentação parecia ter chegado ao fim.

A parte musical tinha Hique cantando e tocando violino, enquanto Nico, que também cantava, tocava sanfona e piano. Daí vinham canções autorais sobre a Sbørnia e outras músicas de artistas como Titãs, Os Paralamas do Sucesso, entre outros, incluindo até uma versão em inglês de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa.

O documentário tem uma montagem impressionante. Pela grande quantidade de entrevistados, o trabalho que foi feito na edição, de conseguir costurar a história de forma linear e envolvente, merece ser aplaudido em pé. Em meio às entrevistas, trechos de um show gravado em 1997 ilustram o que vem sendo narrado. Também há cenas de esquetes interpretadas por Nico e Hique.

“Tangos e Tragédias para sempre”, mais um dos documentários exibidos no In Edit Brasil, traz uma divertida e emocionante história de um espetáculo que marcou a história cultural do Rio Grande do Sul subvertendo conceitos e trazendo novidade para a arte.

O sucesso e o abstrato (documentário)

Partindo da análise da vida e obra do músico Flávio Chaminé, o documentário "O sucesso e o abstrato" busca entender o que é, de fato, esse conceito tão subjetivo de sucesso. O filme, produzido pela Avalanche e dirigido por Virginia Simone e Matheus Walter, apresenta um formato dinâmico e envolvente que explora a discussão enquanto mergulha profundamente na obra do artista.

Flávio Chaminé foi uma figura de grande importância para a juventude brasileira dos anos 1960, não apenas no sul do país, mas também no cenário musical em geral. Com sua habilidade autodidata, ele se destacou como baixista e serviu de referência para muito do que viria depois, especialmente na cena do rock gaúcho. Tocou com artistas como Hermes Aquino, Succo e Musical Saracura, entre outros diversos projetos.

O documentário apresenta entrevistas com músicos que tocaram com Flávio, bem como imagens de arquivo e depoimentos de outros artistas influenciados por sua obra, incluindo uma entrevista com o saudoso Júpiter Maçã e familiares de Chaminé. Destaca-se o depoimento da mãe do músico, que inicialmente via seu filho como apenas um malandro que não queria estudar, mas ao longo da história passou a admirar o trabalho dele.

O filme aborda diversos temas, como a história da cena musical gaúcha e as dificuldades de fazer música durante a ditadura, sempre guiado pela reflexão sobre o que é o sucesso. Os depoimentos de pessoas com conceitos distintos sobre o assunto trazem uma percepção leve e direta de que a discussão é profunda e complexa. Chaminé, com toda a sua influência, mas talvez sem a fama que lhe era merecida, fez sucesso? A discussão é longa.

A história por trás do Fuscão Preto

Lançada no final dos anos 1970, a música Fuscão Preto tem uma história cheia de polêmicas e controvérsias. A letra conta a história de um homem que descobre uma traição ao ouvir rumores de que sua mulher estava com outro em um fusca preto. Ele presencia a triste cena de sua amada se entregando a outro no carro mencionado, e lamenta sua injustiça. A verdade é que tudo isso foi baseado em uma história real, presenciada pelos pintores Mariel e Geovante. Mariel escreveu a música em parceria com Atílio Versuti em 1974.

A controvérsia começa quando o autor conta que, em busca de gravar um disco com seu parceiro Geovante, eles entraram em contato com Jeca Mineiro, que já era um compositor de sucesso. Segundo Mariel, eles receberam a ajuda desejada, mas Jeca pediu para ter seu nome registrado como um dos compositores da música no disco.

Assim, os créditos da música foram para Atílio Versuti e Jeca Mineiro. Mais tarde ela foi regravada por outros artistas, tornando-se um sucesso nacional na voz de Almir Rogério em 1981. A canção foi tão importante que até ganhou um filme, estrelado por Almir ao lado de Xuxa.

Mariel, não creditado como compositor, nunca recebeu direitos autorais pela música e seguiu sua vida como pintor. Em um vídeo postado no YouTube em 2017, o filho de Atílio Versuti explica que Mariel cedeu seus direitos a Jeca Mineiro, possuindo até um documento que comprova essa cessão. No entanto, o pintor ainda busca o reconhecimento por sua autoria.

"Fuscão Preto" foi regravada por diversos artistas, como Trio Parada Dura, Gladiadores, Teodoro e Sampaio, e até mesmo por artistas de gêneros musicais diferentes, como a banda de rock Magazine, Falcão, Beto Lee, Rodrigo José e João Gordo em seu projeto chamado Brutal Brega. Ouça algumas das versões:






As origens da lambada (documentário)

 Gênero originário do Pará que deixou sua marca na história da música brasileira, a lambada teve sua trajetória retratada no documentário "As origens da lambada", dirigido por Sonia Ferro e Felix Robatto. O filme conta com a participação de grandes nomes desse cenário musical, como Pinduca, Luiz Caldas, Mestre Solano, entre outros.

Além das entrevistas realizadas em estúdios, que incluem um número considerável de personagens e proporcionam uma perspectiva abrangente da pesquisa, a produção também apresenta trechos de um show de Felix Robatto, transmitindo toda a envolvente musicalidade da lambada ao longo da narrativa.

Também é abordada a história de como tudo começou, quando o carimbó, um ritmo típico do Pará, se fundiu com a música caribenha. Existem diferentes versões sobre a origem do termo "lambada", assim como a origem definitiva do gênero. Alguns creditam à uma música de Pinduca, de 1976, enquanto outros atribuem a autoria ao Mestre Vieira, com um disco lançado em 1978, mas que teria sido gravado em 1976. 

A partir daquele ano, é possível observar o crescimento dessa cena musical, a inclusão das mulheres no mercado e o destaque de alguns artistas, como Alípio Martins, que levou o gênero para além de sua região de origem, e Beto Barbosa, que o popularizou ainda mais. Tudo isso culminou no grupo Kaoma, que tornou a lambada conhecida mundialmente com o hit "Chorando se foi".

"As origens da lambada" é um retrato muito bem produzido de mais um dos diversos gêneros que têm a cara do Brasil. Animado como as melodias das músicas, o documentário é divertido de assistir e extremamente informativo. A pesquisa de Felix Robatto esbanja bagagem para aqueles que gostam de aprender sobre música.


Êra Punk (documentário)

 "O punk não morreu", é o que a banda Lixomania cantava em seu disco de estreia, em 1982. Passaram-se mais de 40 anos e, pasmem, ele ainda respira. O punk não apenas está vivo, como também é vigoroso. Toda essa vitalidade jovial, apesar da idade avançada, é retratada no documentário ‘Êra Punk’, dirigido por Flávio Galvão. O filme é o terceiro episódio da série "Crônicas Urbanas", do coletivo Linha de Ação.

Ambientado no contexto atual do Brasil, o documentário mostra que o gênero mais rebelde do rock ainda possui uma função não apenas musical, mas também de resistência política. O filme se passa durante a pandemia de Covid-19 e várias imagens ilustram os confrontos em manifestações, sejam elas de esquerda ou não. São exibidas filmagens de uma motociata pró-governo, como foi bastante comum entre 2021 e 2022, onde é possível ver que os punks continuam exercendo seu papel de oposição.

Um dos momentos impactantes do filme é a forma que se usa para retratar a magnitude trágica da pandemia no Brasil. Para isso, foram feitas imagens no cemitério da Vila Formosa, durante o período em que a tragédia ceifou milhares de vidas e os enterros passaram a ser realizados ininterruptamente, 24 horas por dia, para dar conta da demanda.

Um dos personagens centrais do documentário é Ariel, uma figura carismática e bastante conhecida no cenário punk rock brasileiro por sua participação na banda Restos de Nada, além de outros trabalhos com o Invasores de Cérebro e Os Insociáveis. Ariel já foi tema de um documentário anterior e é um dos entrevistados do clássico "Botinada", de Gastão Moreira.

Gravações de shows e ensaios de bandas como Juventude Maldita e Os Insociáveis, cujos membros são alguns dos entrevistados, ajudam a contextualizar a parte musical do punk rock, que, obviamente, além de ser um movimento contracultural, é também uma forma de expressão artística representada pela música agressiva. A trilha sonora conta ainda com as bandas Sociopatas e a lendária Ulster.

"Êra Punk" chega como uma boa notícia para os fãs do gênero, que, mesmo diante de tanta oposição e da exaustiva luta que já dura mais de quatro décadas, podem ter a certeza de que ainda há fôlego para entoar o hino de 1982: "Muita gente comentando, muitos hippies comemorando, que o punk tinha morrido, mas o punk não morreu. O punk não morreu." Ainda bem!

Fausto Fawcett na Cabeça (documentário)

 A mente de pessoas complexas, intelectuais e criativas sempre foi um bom tema para estudos. Nesse sentido, o documentário 'Fausto Fawcett na cabeça' acerta em cheio ao explorar a obra, repleta de filosofia e poesia, deste artista que marcou o final dos anos 80 com o hit 'Kátia Flávia'. Dirigido por Victor Lopes, a produção da TV Zero leva o espectador a um profundo transe artístico.

O ponto principal do documentário é mostrar como Fausto é um observador da vida urbana. Embora muitas cenas sejam em estúdios ou no quarto onde o músico vive, as imagens que mais traduzem o pensamento do escritor são aquelas em que ele caminha pelas ruas de Copacabana.

Fausto afirma que suas ideias surgem quando está andando e costumam ser oriundas de passeios, anotações e conversas. Isso explica por que as narrativas de suas músicas, tão visuais e detalhadas, conseguem soar cinematográficas para o ouvinte. Ele analisa a vida comum e a transforma em arte, mas após uma análise extremamente minuciosa, quase patológica, como ele mesmo define ao mostrar seu altar de assuntos utilizado para estudar o que será explorado em suas obras.

Entrevistas com outros artistas que tiveram contato direto, seja através de colaborações ou por influência de Fausto, como Fernanda Abreu, Regininha Poltergeist e a performer Ex-miss-febem (que tirou seu codinome de uma letra de 'Kátia Flávia'), apontam sempre para um mesmo fato: a singularidade de Fawcett. E isso é muito bem ilustrado nas cenas do documentário que mostram sessões com outros músicos, onde parte do processo criativo do artista é exposta, revelando como a poesia musical vai se formando.

O documentário também evidencia como Fausto sempre foi um músico inovador e ousado em suas letras, sonoridade e estilo interpretativo de cantar. Além disso, destaca a forma como ele utilizava uma técnica quase artesanal de sampler, quando essa tecnologia ainda não era tão presente na música como é hoje.

Utilizando essas características como ferramentas, Fausto transforma toda sua bagagem cultural, filosófica e literária em uma tradução visceral do cotidiano urbano do Rio de Janeiro. O documentário retrata muito bem todo esse movimento, seja em momentos dinâmicos ou em outros mais estáticos e silenciosos, que adentram a mente do inquieto, porém sempre pensante, Fausto Fawcett.

Caymmi e os pescadores mortos no mar

Lançado em 1959, o álbum "Caymmi e seu violão", de Dorival Caymmi, cumpre exatamente o que o nome promete. Apresentando apenas a voz e o violão do cantor, traz uma série de canções calmas e alegres que, em grande parte, abordam o tema do mar, algo recorrente em sua obra. No entanto, quatro faixas se destacam por tratarem de um assunto trágico, mas de maneira bela e poética: a morte de pescadores que partem para o mar e não retornam.

"A jangada voltou só" conta a história de Chico Ferreira e Bento, dois parceiros de pesca que partem para o mar, mas, como o título sugere, a jangada volta vazia. Em uma melodia melancólica, Caymmi canta a tragédia, levando-nos a refletir sobre a ausência que os dois deixarão entre seus conhecidos. O artista vai além do relato da morte em si e destaca os sentimentos daqueles que sofrem a perda dos amigos, conferindo uma abordagem pessoal e especial à reflexão sobre a morte.

A tragédia é retomada no álbum em "É doce morrer no mar", escrita em parceria com Jorge Amado. Essa faixa parece ser uma continuação de "A jangada voltou só" tanto em termos de melodia quanto de temática. A letra agora é em primeira pessoa, mencionando a morte de um ente querido que faleceu no mar. Essa música é conhecida por muitos por meio de outras vozes, como as de Marisa Monte, Cesária Évora e Clara Nunes.

"O mar" é a faixa mais interessante do álbum, pois é a mais bonita e a mais trágica. Logo após um início calmo, cantado em meio a dedilhados que exaltam as ondas que quebram na praia, uma batida rápida, animada e até dançante entra em cena... narrando a triste história de Pedro, um pescador que nunca retornou do mar, e Rosinha, que enlouqueceu após perder seu amado. Pode parecer apenas uma história triste, mas a verdadeira beleza dessa música está na forma como ela narra essa história, trazendo a tristeza, mas envolvendo-a com uma delicadeza única.

Para encerrar, a última faixa do álbum é "Noite de temporal". Nela, o foco está em uma mãe que espera seu filho retornar da pesca em uma noite chuvosa. Essa faixa possui um clima tenso, com um tom de mistério, permitindo que o ouvinte imagine a apreensão e a ansiedade de uma mãe aguardando seu filho em uma situação assim: "Pescador se vai para a pesca na noite de temporal / A mãe se senta na areia esperando ele voltar" - E termina misteriosamente da mesma forma, com um fade out da batida tensa da música e Caymmi cantando: "É noite... é noite... é noite..."

“Caymmi e seu violão” é um disco que merece ser ouvido! Não só pela beleza destas poesias trágicas, mas como um todo, é um ótimo trabalho.

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