A mente de pessoas complexas, intelectuais e criativas sempre foi um bom tema para estudos. Nesse sentido, o documentário 'Fausto Fawcett na cabeça' acerta em cheio ao explorar a obra, repleta de filosofia e poesia, deste artista que marcou o final dos anos 80 com o hit 'Kátia Flávia'. Dirigido por Victor Lopes, a produção da TV Zero leva o espectador a um profundo transe artístico.
O ponto principal do documentário é mostrar como Fausto é um observador da vida urbana. Embora muitas cenas sejam em estúdios ou no quarto onde o músico vive, as imagens que mais traduzem o pensamento do escritor são aquelas em que ele caminha pelas ruas de Copacabana.
Fausto afirma que suas ideias surgem quando está andando e costumam ser oriundas de passeios, anotações e conversas. Isso explica por que as narrativas de suas músicas, tão visuais e detalhadas, conseguem soar cinematográficas para o ouvinte. Ele analisa a vida comum e a transforma em arte, mas após uma análise extremamente minuciosa, quase patológica, como ele mesmo define ao mostrar seu altar de assuntos utilizado para estudar o que será explorado em suas obras.
Entrevistas com outros artistas que tiveram contato direto, seja através de colaborações ou por influência de Fausto, como Fernanda Abreu, Regininha Poltergeist e a performer Ex-miss-febem (que tirou seu codinome de uma letra de 'Kátia Flávia'), apontam sempre para um mesmo fato: a singularidade de Fawcett. E isso é muito bem ilustrado nas cenas do documentário que mostram sessões com outros músicos, onde parte do processo criativo do artista é exposta, revelando como a poesia musical vai se formando.
O documentário também evidencia como Fausto sempre foi um músico inovador e ousado em suas letras, sonoridade e estilo interpretativo de cantar. Além disso, destaca a forma como ele utilizava uma técnica quase artesanal de sampler, quando essa tecnologia ainda não era tão presente na música como é hoje.
Utilizando essas características como ferramentas, Fausto transforma toda sua bagagem cultural, filosófica e literária em uma tradução visceral do cotidiano urbano do Rio de Janeiro. O documentário retrata muito bem todo esse movimento, seja em momentos dinâmicos ou em outros mais estáticos e silenciosos, que adentram a mente do inquieto, porém sempre pensante, Fausto Fawcett.

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