terça-feira, 27 de junho de 2023

Caymmi e os pescadores mortos no mar

Lançado em 1959, o álbum "Caymmi e seu violão", de Dorival Caymmi, cumpre exatamente o que o nome promete. Apresentando apenas a voz e o violão do cantor, traz uma série de canções calmas e alegres que, em grande parte, abordam o tema do mar, algo recorrente em sua obra. No entanto, quatro faixas se destacam por tratarem de um assunto trágico, mas de maneira bela e poética: a morte de pescadores que partem para o mar e não retornam.

"A jangada voltou só" conta a história de Chico Ferreira e Bento, dois parceiros de pesca que partem para o mar, mas, como o título sugere, a jangada volta vazia. Em uma melodia melancólica, Caymmi canta a tragédia, levando-nos a refletir sobre a ausência que os dois deixarão entre seus conhecidos. O artista vai além do relato da morte em si e destaca os sentimentos daqueles que sofrem a perda dos amigos, conferindo uma abordagem pessoal e especial à reflexão sobre a morte.

A tragédia é retomada no álbum em "É doce morrer no mar", escrita em parceria com Jorge Amado. Essa faixa parece ser uma continuação de "A jangada voltou só" tanto em termos de melodia quanto de temática. A letra agora é em primeira pessoa, mencionando a morte de um ente querido que faleceu no mar. Essa música é conhecida por muitos por meio de outras vozes, como as de Marisa Monte, Cesária Évora e Clara Nunes.

"O mar" é a faixa mais interessante do álbum, pois é a mais bonita e a mais trágica. Logo após um início calmo, cantado em meio a dedilhados que exaltam as ondas que quebram na praia, uma batida rápida, animada e até dançante entra em cena... narrando a triste história de Pedro, um pescador que nunca retornou do mar, e Rosinha, que enlouqueceu após perder seu amado. Pode parecer apenas uma história triste, mas a verdadeira beleza dessa música está na forma como ela narra essa história, trazendo a tristeza, mas envolvendo-a com uma delicadeza única.

Para encerrar, a última faixa do álbum é "Noite de temporal". Nela, o foco está em uma mãe que espera seu filho retornar da pesca em uma noite chuvosa. Essa faixa possui um clima tenso, com um tom de mistério, permitindo que o ouvinte imagine a apreensão e a ansiedade de uma mãe aguardando seu filho em uma situação assim: "Pescador se vai para a pesca na noite de temporal / A mãe se senta na areia esperando ele voltar" - E termina misteriosamente da mesma forma, com um fade out da batida tensa da música e Caymmi cantando: "É noite... é noite... é noite..."

“Caymmi e seu violão” é um disco que merece ser ouvido! Não só pela beleza destas poesias trágicas, mas como um todo, é um ótimo trabalho.

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