quinta-feira, 6 de julho de 2023

Como Nossos Pais no comercial da Volks com Elis Regina versão IA

O tão comentado comercial da Volkswagen com participação de Maria Rita e uma versão revivida por inteligência artificial de Elis Regina! Para comemorar os 70 anos da Volks no Brasil, a peça publicitária homenageia as diferentes gerações que se utilizaram de seus veículos no decorrer dos anos. Tudo isso ilustrado por uma série de imagens que simboliza esse passar do tempo e embalado por um dueto de “Como Nossos Pais” entre Maria Rita, dirigindo uma Id. Buzz, e a versão deepfake de Elis, em uma estética personagem de The Sims, em uma kombi azul.


Como tudo o que dá as caras na internet, óbvio que a propaganda gerou uma série de polêmicas e alvoroço nas redes sociais. De um lado, os revoltados com o suposto desrespeito à imagem de uma das maiores figuras femininas que a música brasileira teve o prazer de ver; outros, emocionados com a campanha, amaram e exibiram paixão e nostalgia.


Uma questão apontada por grande parte do público foi a escolha da música, que pareceu trazer o sentido de “como nossos pais” continuamos dirigindo os carros da VW, o que seria uma grande distorção do objetivo da letra, que é mostrar a dor de perceber que com o passar dos anos deixamos os ideais jovens de mudança e acabamos conformados como a geração anterior, gerando assim uma sequência de acomodação que impede a mudança de chegar.


Somado a isso, o fato de que a canção, de autoria de Belchior, foi um hino de resistência durante a ditadura militar. Por outro lado, o relatório final de uma investigação iniciada em 2015, após pedido da Comissão Nacional da Verdade, concluiu que a fabricante de carros  colaborou com o governo da época e o presidente da Volks na época teria, inclusive, elogiado o golpe de 1964. “A empresa demonstrou vontade de participar do sistema repressivo, sabendo que submetia seus funcionários a risco de prisões ilegais e tortura", segundo o relatório.


O produtor e também filho de Elis Regina, João Marcello Bôscoli, em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha, afirmou que se emocionou com o comercial e considerou que a crítica à empresa já não cabe mais, uma vez que muitas empresas, de diversos países, em algum momento tiveram algum envolvimento polêmico com governos e ditaduras. João afirma ainda que a busca pela música de sua mãe aumentou nas plataformas digitais.


Independente de qualquer discordância, o trabalho da Almap BBDO, que realizou a campanha, está incrível. Qualquer um no lugar de Maria Rita se emocionaria, como de fato aconteceu no evento de lançamento da campanha, onde a cantora foi aos prantos. Não é para menos. Para ela, que seguiu os passos da mãe na música, ter uma oportunidade dessas é um momento único, certamente.  

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O compositor norte-americano do séc. XIX que fez uma variação do Hino Nacional Brasileiro

 Qualquer cidadão deste país que já estudou em escola pública, foi a um desfile de 7 de setembro ou até mesmo simplesmente assistiu a algum jogo da Seleção Brasileira de Futebol conhece de cor a melodia do Hino Nacional Brasileiro, composição de Francisco Manuel da Silva. A letra, escrita por Joaquim Osório Duque-Estrada, já não está tão decorada assim por todos, embora fosse anualmente a contracapa de nossos livros didáticos.

Muitos, porém, desconhecem a “Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro”, uma série de variações em piano da música original, composta pelo pianista norte-americano Louis Moreau Gottschalk. A obra foi dedicada à Isabel, Princesa Imperial do Brasil, e teve sua estreia em um concerto de 1869, executada por 650 músicos.

Suas interpretações ficaram muito conhecidas pelas mãos das pianistas Guiomar Novaes e Eudóxia de Barros. Na década de 1980, ganhou atenção novamente ao ser tocada na cobertura da Rede Globo do funeral do presidente eleito, porém não empossado, em 1985, Tancredo Neves. Sua parte inicial também era o tema de abertura das propagandas eleitorais do PDT durante a campanha presidencial de Leonel Brizola, em 1989.

Alguns anos antes, uma polêmica girou em torno da obra, quando a Comissão Nacional de Moral e Civismo abriu um processo, na primeira metade da década de 1970, por considerar que a música era um arranjo do Hino Nacional, o que é proibido pela Lei 5700, de 1971, cujo capítulo V, artigo 34, diz que “é vedada a execução de quaisquer arranjos vocais do Hino Nacional, a não ser o de Alberto Nepomuceno; igualmente não será permitida a execução de arranjos artísticos instrumentais do Hino Nacional que não sejam autorizados pelo Presidente da República, ouvido o Ministério da Educação e Cultura”. O processo, por fim, foi encerrado após a consideração de que existe uma diferença entre arranjo e variação.

O compositor da variação foi recentemente tema do excelente documentário “Louis Moreau Gottschalk, popstar no séc. XIX ou somente um pianista?”. Dirigido por Rubens Crispim e Heloisa Faria, o filme mostra por meio de entrevistas e pesquisas, com colaboração da artista Luiza Gottschalk, descendente do pianista, toda sua trajetória que terminou no Brasil e como ele foi um rockstar antes da mídia.


terça-feira, 4 de julho de 2023

Quando Sylvinha Araújo encarnou a Janis Joplin brasileira

Conhecida cantora da época da Jovem Guarda, Sylvinha Araújo lançou dois trabalhos no final dos anos 1960, um compacto e um LP. Mas foi em 1971 que sua sonoridade passou por uma mudança que lhe rendeu o apelido de “Janis Joplin brasileira”.

O disco, denominado simplesmente “Silvinha” (com a grafia diferente da que ela adotaria mais tarde, com o uso do “y”), traz músicas completamente influenciadas pelo som do início da década de 70, como o rock progressivo, com muito psicodelismo, e até com um pouco da black music e jazz.

A voz doce que foi apresentada nos discos anteriores deu lugar a uma força cheia de agudos com drives impressionantes, o que fez com que o crítico musical Nelson Motta desse a ela o apelido nesta fase de sua carreira. Muito justo, aliás. O álbum conta com as guitarras do genial Lanny Gordin, que certamente ajudaram e muito na construção da proposta sonora do disco.

Os destaques ficam para a versão rock n’ roll de “Paraíba”, de Luiz Gonzaga; “Você já morreu e se esqueceu de deitar”, composição de Roberto e Erasmo; e “Risque”, de Ary Barroso, que já teve interpretações de Silvio Caldas, Marília Pêra, Aurora Miranda e, claro, o grande Nelson Gonçalves. Mas, com Sylvinha a canção ganhou uma versão mais intensa, com baixos marcantes e a voz potente que a deixa extremamente emocionante.



terça-feira, 27 de junho de 2023

O dia em que Ronaldo Fenômeno contratou Nilton César para cantar UMA música na Rússia

Hoje, 27 de junho, o cantor Nilton César completa 84 anos de vida. O músico fez sucesso na década de 1960 com o hit “Professor apaixonado” e no decorrer de sua carreira lançou diversos outros sucessos, como “Férias na Índia” e “A namorada que sonhei”,  que ficou mais conhecida por sua frase inicial: “Receba as flores que lhe dou…”. Mas uma história interessante vem da música “Espere um pouco”.

Em entrevista ao jornalista Danilo Gobatto, na Rádio Bandeirantes, Nilton contou sobre um episódio em que o ex-jogador Ronaldo Fenômeno o convidou para um show de apenas uma música na Rússia. A apresentação aconteceu, teve abertura de Carla Bruni e o brasileiro foi recebido com tapete vermelho. Ele conta que ao terminar recebeu um grande abraço de Ronaldo que “quase o partiu pelo meio”. Confira o relato do cantor na entrevista:

“A história mais interessante que eu tenho na minha vida profissional é essa aí. O Ronaldo Fenômeno queria me contratar para cantar uma música para um biliardário na Rússia. Eu falei ‘não, Ronaldo. Você deve estar fazendo confusão. Eu nunca fiz sucesso na Rússia’. Ele me disse: ‘não, você vai lá para cantar uma música só’.

Eu não entendia, depois pedi para ele me explicar, ele me explicou o porquê que eu iria lá. Ele falou: ‘é que esse russo é casado com uma brasileira há muitos anos e ela é muito sua fã. E de tanto ela ouvir a música, ele se apaixonou pela música. Você vai cantar só uma música’. Eu falei: ‘meu Deus do céu, mas será que eu não posso cantar pelo menos três músicas?’.

Eu falei para colocarmos pelo menos três, ele me deixou colocar três músicas. A hora que eu cantei ‘Espere um pouco’, ele abraçava a mulher dele e foi coisa de lágrimas nos olhos”.

Nilton César continua ativo e ainda se apresentando tanto no Brasil quanto no exterior.

Ópera Cabaré, Casa Barbosa (documentário)

 Em um resgate de uma parte importante da história do samba, o documentário "Ópera Cabaré Casa Barbosa", exibido no In Edit Brasil, revive musicalmente a importância da casa de shows que dá parte do nome do filme: a Ópera Cabaré. Renomados artistas como Adoniran Barbosa, Clementina de Jesus, Zé Keti, entre outros, passaram por lá.

Produzido pela Complô, com direção de Rodrigo Marques e Eduardo Consonni, o documentário segue uma fórmula simples. Foram selecionados seis artistas que costumam se apresentar na Casa Barbosa. Um por um, eles sentam-se, colocam fones de ouvido e ouvem músicas de fitas encontradas contendo apresentações ao vivo que ocorreram na Ópera Cabaré.

Após a audição, o músico comenta o que ouviu, discorrendo sobre detalhes técnicos da música, a influência daquele artista em sua vida e carreira, abrindo espaço para diferentes assuntos. Vicente Barreto, por exemplo, analisa sua antiga apresentação e se depara com seu amadurecimento, enquanto cantores mais jovens mostram como foram influenciados pelos grandes do samba. Além disso, são compartilhadas reflexões sobre as dificuldades da vida de artista e diversos outros temas.

Por fim, depois dos relatos, cada um desses contemporâneos reinterpreta a canção que acabou de ouvir. As seis faixas, inclusive, foram lançadas em um EP que pode ser encontrado na fanpage do filme no Facebook.

O formato do documentário é simples, minimalista e até repetitivo, mas bastante interessante do ponto de vista histórico, reflexivo por meio dos depoimentos e inspirador ao mostrar o sangue novo presente nas reinterpretações.

Tangos e Tragédias para sempre (documentário)

Sem dúvidas um espetáculo único. A conclusão que se tem ao assistir ao documentário “Tangos e Tragédias para sempre” é que a peça, estrelada por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, foi singular, diferente de tudo o que já se viu no teatro. Dirigido por Aloísio Rocha, a produção da BIT Filmes em coprodução com a Videomakers, conta toda a história dessa encenação que ficou mais de 30 anos em cartaz, até a morte de Nicolaiewsky, em 2014.

Hique e Nico interpretam Kraunus Sang e o Maestro Pletskaya, respectivamente. A dupla de músicos, vindos da Sbørnia, fugiu de sua terra natal quando o rock n’ roll chegou ao país. Então, refugiaram-se no Rio Grande do Sul. Com esse enredo, os personagens contavam sua história em um espetáculo que unia atuação, comédia e muito improviso com uma quebra de quarta parede que chegava aos limites, com o show continuando fora do teatro quando a apresentação parecia ter chegado ao fim.

A parte musical tinha Hique cantando e tocando violino, enquanto Nico, que também cantava, tocava sanfona e piano. Daí vinham canções autorais sobre a Sbørnia e outras músicas de artistas como Titãs, Os Paralamas do Sucesso, entre outros, incluindo até uma versão em inglês de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa.

O documentário tem uma montagem impressionante. Pela grande quantidade de entrevistados, o trabalho que foi feito na edição, de conseguir costurar a história de forma linear e envolvente, merece ser aplaudido em pé. Em meio às entrevistas, trechos de um show gravado em 1997 ilustram o que vem sendo narrado. Também há cenas de esquetes interpretadas por Nico e Hique.

“Tangos e Tragédias para sempre”, mais um dos documentários exibidos no In Edit Brasil, traz uma divertida e emocionante história de um espetáculo que marcou a história cultural do Rio Grande do Sul subvertendo conceitos e trazendo novidade para a arte.

O sucesso e o abstrato (documentário)

Partindo da análise da vida e obra do músico Flávio Chaminé, o documentário "O sucesso e o abstrato" busca entender o que é, de fato, esse conceito tão subjetivo de sucesso. O filme, produzido pela Avalanche e dirigido por Virginia Simone e Matheus Walter, apresenta um formato dinâmico e envolvente que explora a discussão enquanto mergulha profundamente na obra do artista.

Flávio Chaminé foi uma figura de grande importância para a juventude brasileira dos anos 1960, não apenas no sul do país, mas também no cenário musical em geral. Com sua habilidade autodidata, ele se destacou como baixista e serviu de referência para muito do que viria depois, especialmente na cena do rock gaúcho. Tocou com artistas como Hermes Aquino, Succo e Musical Saracura, entre outros diversos projetos.

O documentário apresenta entrevistas com músicos que tocaram com Flávio, bem como imagens de arquivo e depoimentos de outros artistas influenciados por sua obra, incluindo uma entrevista com o saudoso Júpiter Maçã e familiares de Chaminé. Destaca-se o depoimento da mãe do músico, que inicialmente via seu filho como apenas um malandro que não queria estudar, mas ao longo da história passou a admirar o trabalho dele.

O filme aborda diversos temas, como a história da cena musical gaúcha e as dificuldades de fazer música durante a ditadura, sempre guiado pela reflexão sobre o que é o sucesso. Os depoimentos de pessoas com conceitos distintos sobre o assunto trazem uma percepção leve e direta de que a discussão é profunda e complexa. Chaminé, com toda a sua influência, mas talvez sem a fama que lhe era merecida, fez sucesso? A discussão é longa.

Como Nossos Pais no comercial da Volks com Elis Regina versão IA

O tão comentado comercial da Volkswagen com participação de Maria Rita e uma versão revivida por inteligência artificial de Elis Regina! Par...